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Atualização no tratamento da fibromialgia
Goldenberg DL - Bull Rheum Dis, 53(1):1-6, 2004
Versão: Maytê Rodriguez Palacios Costa
Médica. Aluna do Curso de Especialização (E2 - 2º ano, dedicação plena) do Serviço de Reumatologia do HSPE-"FMO".

Pontos básicos

· A fibromialgia representa uma síndrome dolorosa crônica, caracterizada por dor difusa sem causa aparente, bem como hipersensibilidade à pressão de 11 dos 18 pontos dolorosos, fadiga e sono não restaurador.
· A pesquisa acerca da dor em fibromialgia sugere sensibilização do sistema nervoso central.
· A educação do paciente, a terapia cognitiva comportamental e várias formas de exercícios têm se mostrado benéficas. Um amplo espectro de medicações obteve sua eficácia comprovada em estudos clínicos randomizados.

Introdução

A fibromialgia é a causa mais comum de dor crônica difusa. Cerca de 6 a 10 milhões de norte-americanos preenchem os critérios de classificação para esta síndrome.

Devido aos evidentes números, muitos desses pacientes são referenciados ao atendimento médico primário. Os reumatologistas e outras especialidades assistem a menos de 20% daqueles com fibromialgia. Portanto, o reconhecimento e o manejo dessa condição clínica são necessários aos médicos generalistas.

Entre os reumatologistas há intensa discussão se a fibromialgia representaria ou não uma entidade clínica distinta, determinando dúvidas entre os clínicos gerais sobre a melhor abordagem terapêutica.

De fato, não existem limites definidos para distinguir esta enfermidade de outras desordens funcionais, tais como síndrome da fadiga crônica ou do cólon irritável ou, ainda, enxaqueca muscular. Porém, os médicos de atendimento primário se confrontam diariamente com síndromes de "não doença", tais como cefaléia, dor nas costas, tontura e fadiga crônica.

Aproximadamente 70% dos cuidados primários são utilizados por inexplicáveis desordens clínicas, tais como fibromialgia.

Diagnóstico

O diagnóstico de fibromialgia tem como base uma história de, no mínimo, três meses consecutivos de dor de localização inespecífica, bilateralmente, acima e abaixo da cintura, e axial. A dor deve ser acompanhada pela presença de excessivo dolorimento à pressão de 11 dos 18 pontos músculo-tendinosos estabelecidos ("tender points"). Esse critério de classificação do Colégio Americano de Reumatologia (ACR-1990) para o diagnóstico de fibromialgia confere sensibilidade e especificidade de cerca de 85%, ao diferenciar a fibromialgia de outras formas de dor músculo-esquelética crônica.

Não há achados físicos definitivos, laboratoriais ou anormalidades de imagem na fibromialgia. Portanto, assim como no diagnóstico de cefaléias crônicas idiopáticas ou dor lombar crônica, a acurácia do clínico em "descartar" os estados patológicos pode variar significativamente. As sugestões a adicionar a esse processo e enganos comuns (armadilhas de diagnóstico) estão listados na Tabela 1.
O primeiro passo para a tentativa de controlar a fibromialgia é fazer o diagnóstico. Alguns reumatologistas estabelecem que o diagnóstico dessa patologia conduz a uma excessiva sensação de desamparo e de incapacidade (Tabela 2), embora estas evidências não tenham sido encontradas num único estudo de avaliação do impacto terapêutico do diagnóstico dessa síndrome. Muitos pacientes prosseguem silenciosos, meses ou anos, antes da detecção da enfermidade. Um diagnóstico clínico acurado e precoce diminuirá a solicitação de testes dispendiosos e desnecessários. Na visita inicial, uma história de distúrbios de estado de humor e do sono deve ser questionada e, encaminhamentos a profissionais de saúde mental e a clínicas de sono devem ser consideradas.

Planejamento terapêutico

Os reumatologistas e outros especialistas devem ser consultados quanto à estratégia terapêutica, necessitando cuidados multidisciplinares (Figura 1). A informação do paciente e da família é crítica para um controle eficaz da síndrome fibromiálgica. Informações errôneas são comuns em disfunções controversas, tais como fibromialgia (Tabela 3).






Figura 1 - Etapas no tratamento da fibromialgia.

O médico generalista deve ser cauteloso ao explicar a natureza dessa patologia e fornecer subsídios para a educação do paciente (Tabela 4). Em estudos clínicos randomizados, a educação desses doentes resultou em melhora da dor, fadiga, sono, auto-suficiência, qualidade de vida e habilidade de realizar exercícios.

A maioria dos programas educacionais utilizaram 6 a 17 sessões semanais, mas a intervenção multidisciplinar diária também foi eficaz. A terapia cognitiva comportamental, formal, geralmente informa o paciente sobre a doença, mas também fornece técnicas para assistir às atividades da vida diária e dispersar sentimentos de desamparo e falta de expectativas. Numerosos estudos clínicos randomizados têm comprovado o benefício desse tratamento, incluindo redução da dor e melhora da função. O exercício cardiovascular supervisionado tem consistentemente levado à melhora nos sintomas e função dos enfermos.

Se o médico clínico geral não dispõe de tempo ou técnica apurada para informar ao paciente sobre a natureza da condição clínica e de opções terapêuticas, outros profissionais da saúde devem ser sugeridos (Tabela 4).

Os exercícios aeróbicos, como caminhada, hidroginástica e musculação têm sido estudados. O exercício deve ser introduzido de modo gradual e crescente, objetivando, no mínimo, 30 minutos de exercício cardiovascular três vezes por semana. A combinação destes com a terapia cognitiva comportamental em programas multidisciplinares constituem os elementos mais eficazes (Tabela 4).





A pesquisa em dor

A pesquisa da dor na fibromialgia tem demonstrado anormalidades na função neuro- transmissora e neuroendócrina e se enquadram num modelo de sensibilização central.

Apesar de os músculos serem "espectadores inocentes" em tal modelo, os doentes freqüentemente respondem às modalidades físicas, incluindo terapia física, massagem, manipulação tecidual, injeções nos tecidos moles, acupuntura ou quiropraxia.

Por conseguinte, é necessária uma consulta com uma equipe de reabilitação, incluindo fisiatras e terapeutas físicos. A fibromialgia, a cefaléia, a síndrome do cólon irritável e da fadiga crônica compartilham características fenotípicas e de genótipo com labilidade emocional. Cerca de 20% a 40% dos pacientes com fibromialgia apresentam significativa doença psíquica, especialmente depressão maior.

É comum uma história de abuso físico ou sexual e estresse pós-traumático. Esses fatores são mais proeminentes nos enfermos dos centros de referência terciários que nos primários.

Logo, os antidepressivos, bem como a terapia cognitiva comportamental têm sido comumente prescritos para a doença. Os antidepressivos constituem a classe medicamentosa mais efetiva usada na fibromialgia, além de evidências de efeito analgésico em muitos distúrbios de dor crônica e podem estar relacionados ao aumento das concentrações espinhais de serotonina e norepinefrina.

Medicação/tratamento

Os antidepressivos tricíclicos são uma das classes de medicações com comprovada eficácia em estudos clínicos randomizados. Os pacientes geralmente iniciam doses baixas, tais como 5 a 10 mg de amitriptilina,nortriptilina, desipramina ou ciclobenzaprina uma a três horas antes de dormir. A dose pode ser aumentada após duas semanas, com aumentos de 5 mg a cada 14 dias. A dose final deve ser ajustada pelo paciente, baseada na eficácia e nos efeitos colaterais, sempre mantendo a dose tão baixa quanto possível.

O uso desses agentes a longo prazo não está bem estabelecido e a melhora com esses fármacos parece enfraquecer com o tempo. Os inibidores do receptor de serotonina agem de forma eficaz como monoterapia ou em combinação com antidepressivos tricíclicos na fibromialgia. Observou-se efeito benéfico anedotal em estudos clínicos randomizados de inibidores da recaptação de serotonina e norepinefrina, incluindo a venlafaxina, milnacipran e duloxetina.

Os anticonvulsivantes, incluindo gabapentina e pregabalina, obtiveram bons resultados em relatos prévios; o primeiro ainda está sob estudo e o segundo medicamento ainda não foi aprovado pelo "FDA". O tramadol isolado ou com o acetaminofeno possuem ação reconhecida em estudos clínicos randomizados.

A dose usual é de 200 a 300 mg diários com ação agonista no receptor opióide e inibe a recaptação de serotonina e norepinefrina. Ainda não foram realizados estudos clínicos randomizados dos medicamentos antiespásticos na fibromialgia, todavia, por vezes, são usados. Outras novas substâncias sob teste incluem antagonistas de NMDA, antagonistas 5-H13 e novos fármacos antiespásticos.

Os antiinflamatórios não esteróides, incluindo os inibidores seletivos da COX-2 e o acetaminofeno, propiciam alguma analgesia como adjuntos no controle da dor, porém sem eficiência nos estudos de fibromialgia. Não se observam estudos controlados de opióides na síndrome fibromiálgica e a decisão do seu uso em qualquer dor crônica é variável para o indivíduo.

As medicações tais como benzodiazepínicos, sedativos de outras classes ou L-dopa/carbidopa e gama-hidroxibuturato podem ser úteis nos distúrbios do sono na fibromialgia. Não há comprovações que sustentem o uso de corticóides, hormônios tiroidianos ou terapias nutricionais nessa enfermidade, embora o hormônio de crescimento parenteral tenha mostrado resultados modestos num subgrupo de pacientes com baixos níveis de hormônio de crescimento.

Conclusão

Os pacientes refratários à terapia devem ser encaminhados a um reumatologista ou fisiatra e tratados por uma equipe multidisciplinar (Figura 1). Esses especialistas e os médicos com experiências no controle da dor, possuem novas medicações mais complexas, que podem ser úteis na fibromialgia.

Esses profissionais de saúde são importantes para o paciente e para os clínicos gerais obterem uma reabilitação com sucesso. O tratamento da fibromialgia começa com um médico de atendimento primário capacitado a atender pessoas com manifestações psicossomáticas que não podem ser explicadas por anormalidades estruturais ou fisiopatológicas.

 

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