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Anticorpos antifosfolípides (AAF) constituem um complexo e heterogêneo grupo de auto-anticorpos. Os AAF podem ser detectados em infecções, neoplasias e, caracteristicamente, na chamada síndrome antifosfolipídica (SAF). A SAF, descrita em 1985, é uma diátese trombótica auto-imune do adulto jovem. Nesta revisão, abordamos as especificidades dos AAF (anticoagulante lúpico, anticorpos anticardiolipina) em doenças auto-imunes e infecciosas. Os novos critérios clínicos e laboratoriais para SAF são discutidos. A associação entre AAF e isquemia cerebral é enfatizada.
ANTICORPOS ANTIFOSFOLÍPIDES:
ESPECIFICIDADES
Os anticorpos antifosfolípides (AAF) compreendem um heterogêneo grupo de autoanticorpos associados a diátese trombótica (a assim chamada síndrome antifosfolipídica), infecções e neoplasias(1,2,3). Historicamente, em 1952, Conley & Hartmann descreveram um "inibidor atípico" da via da coagulação em duas pacientes com lúpus eritematoso sistêmico (LES)(4). Em 1963, Bowie e cols.
Figura 1 - Molécula fosfolipídica básica. Os grupos fosfodiéster (epítopos principais) e diacilglicerol são destacados. Para cada FL especifico, um radical álcool ocupa o grupo substituto X (modificado da ref. 3).
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Henrique Luiz Staub
Mestre em Imunologia pela Universidade de Londres. Professor assistente de Reumatologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Professor de Imunologia da Pós-Graduação da PUCRS. Ex-médico residente do Serviço de Reumatologia do Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo "Francisco Morato de Oliveira".
chamaram a atenção para a presença de tromboses em pacientes lúpicas que apresentavam este mesmo inibidor no plasma(5). O termo "anticoagulante lúpico" (AL) para o inibidor que alterava os tempos de coagulação fosfolípide-dependentes, mas que paradoxalmente in vivo se associava a tromboses, foi introduzido, em 1972, por Feinstein & Rapaport(6). Com freqüência, pacientes com AL exibiam concomitantemente reações falso-positivas para sífilis(1,2,3,6).
De interesse, em 1980 um grupo de autores observou que um anticorpo monoclonal com atividade AL se ligava a fosfolípides (FL) de carga negativa em ensaios de fase sólida(7). Na seqüência, AAF purificados com atividade contra FL de carga negativa comprovadamente prolongavam os tempos de coagulação(8). Estes achados favoreciam a hipótese de que o fenômeno AL era de fato causado por AAF(7,8). A Figura 1 mostra a estrutura básica de uma molécula de FL.
O AL é modernamente considerado um auto-anticorpo adquirido que age na ativação da protrombina, na junção das vias intrínseca e extrínseca da coagulação(9). Uma superfície fosfolipídica, provavelmente oriunda da membrana plaquetária, funcionaria como auto-antígeno(9,10). Além de FL, a ativação da protrombina também requer a presença dos fatores V, X e de cálcio.
Embora os FL participem de outras etapas da via da cogulação, como ativação do fator X e a inativação do fator V pela proteína C, os AAF, incluindo-se aqui o AL, parecem preferencialmente se dirigir a FL plaquetários no complexo ativador da protrombina(10). A Figura 2 ilustra o principal mecanismo de ação do AL na cascata da coagulação.
De fato, FL de carga negativa (mas também fosfatidiletanolamina, um FL neutro) extraídos da membrana plaquetária são aparentemente alvos de AAF, de acordo com um estudo de 1987(11). A agregação plaquetária resultante do distúrbio da membrana celular desencadearia trombose(11).
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