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Anticorpos antifosfolípides e síndrome antifosfolipídica

mais a conformação do FL do que propriamente sua carga(25). A ELISA utilizada para detecção de aCL (IgG, IgM, IgA) está padronizada desde a realização do primeiro simpósio em AAF, realizado em 1987(26). Pacientes com níveis moderados ou altos de aCL, especialmente IgG e IgM, estão propensos a eventos trombóticos(22,26). De forma eventual, IgA aCL pode ser detectada isoladamente em pacientes com SAF(26). Nos pacientes que cursam com fator reumatóide IgM em títulos altos no soro, falsa-positividade para IgG ou IgM aCL pode ser observada em ELISA(27). Nesta circunstância, a absorção do fator reumatóide com anti-soros deve ser efetuada(27). A avidez dos anticorpos pela CL em placas de ELISA é consideravelmente maior quando são usados diluentes que utilizam soro bovino a 10%, fonte de beta-2-glicoproteína 1 (beta-2-gp1)(1,28). É possível que a conformação bioquímica da CL seja modificada na presença da beta-2-gp1, ou que os dois compostos formem um complexo antigênico, ou ainda que a beta-2-gp1 funcione como antígeno isoladamente(28). A beta2-gp1 (ou apoliproteína H) é um anticoagulante natural, com ações inibitórias na ativação do fator XII(29). Além do mais, parece inativar o complexo ativador da protrombina ao interagir com FL de carga negativa(29). Os efeitos da beta-2-gp1 sobre a cascata da coagulação são aparentemente desregulados por AAF, o que resultaria em tromboses(28,29). Anticorpos anti-beta-2-gp1 podem ser detectados através de ELISA, e podem servir de marcadores de SAF concomitantemente ou não a outros AAF como AL e aCL(30,31). De interesse, o soro de pacientes com infecções como sífilis ou tuberculose não costuma conter anticorpos que reajam contra beta2-gp1(32); este achado é importante na diferenciação das especificidades dos AAF em infecções e na SAF(32). Em um estudo datado de 1992, anticorpos anti-beta-2-gp1 estiveram mais convincentemente associados a tromboses do que outros AAF em pacientes com LES(33). De acordo com outro grupo de autores, não mais do que 50% dos pacientes aCL-positivos com SAF foram positivos para anticorpos anti-beta-2-gp1(34). Claramente, há subgrupos de pacientes com SAF com anticorpos que reagem contra um composto mas não contra o outro(33,34). Embora uma similaridade estrutural entre a beta-2-gp1 e a lipoproteína LDL (low density lipoprotein) tenha sido previamente descrita(35), a eventual existência de anticorpos cruzados contra as duas moléculas não pôde ser comprovada em pacientes com SAF(34). Interessantemente, um grupo de autores havia anteriormente relatado reação cruzada entre aCL e anticorpos anti- LDL em pacientes com LES(36).

Os testes sorológicos para sífilis foram as primeiros a utilizarem FL como reagentes(1,37,38). Tanto na reação de floculação do VDRL (Venereal Disease Research Laboratory), como no teste de fixação de Complemento (ensaio de Wasserman), a mistura antigênica inclui CL, FC e colesterol(37,38). Embora o VDRL falso-positivo ainda se constitua em critério laboratorial para LES(39), o teste é pouco sensível para o diagnóstico de SAF(3,37). Enquanto os anticorpos de pacientes com sífilis são ávidos pela mistura CL-FC-colesterol, na SAF a avidez dos anticorpos é consideravelmente menor, gerando baixas titulações (falsa-positividade) no VDRL(37). O VDRL foi utilizado em ELISA por dois grupos de autores(37,38), e nestas circunstâncias ficaram evidentes os achados previamente observados no teste de floculação: soros sifilíticos reagem fortemente ao VDRL em placas de ELISA, enquanto anticorpos obtidos de pacientes com SAF o fazem fracamente. Postula-se que a FC e o colesterol funcionem como "lípides auxiliares", moldando a conformação da CL e em conseqüência a sua antigenicidade frente aos anticorpos de pacientes com sífilis ou SAF(37,38). Na SAF, as especificidades antigênicas do AL e do aCL, contrariamente aos estudos iniciais que mostravam boa correlação entre os dois testes(2,3,39), parecem, de fato, diferir(40). A discordância entre os dois testes pode chegar a 35% dos casos(41). Em 1989, descrevemos sete pacientes com SAF nos quais a positividade para AL não foi acompanhada por reatividade contra FL de carga negativa em ELISA(42). Derksen e cols. observaram diferentes efeitos da prednisona no AL e no aCL, o primeiro sendo rapidamente removido da circulação, enquanto aCL se comportavam de maneira mais "rígida"(43). O mesmo autor sugeriu, em 1988, que o AL é um teste mais específico (embora menos sensível) do que aCL em pacientes com SAF(44). De fato, em pacientes com LES, independente dos níveis séricos do anticorpo, aCL são detectados em cerca de 40% dos casos(3), enquanto o AL pode ser encontrado em 10% dos pacientes(45). A SAF parece acometer aproximadamente 5% dos pacientes com LES(46). Neste contexto, novamente o AL parece provido de maior especificidade em relação aos aCL no diagnóstico de SAF(45,46). McNeil e cols., em 1989, já sugeriam que aCL e AL compreendem dois subgrupos de AAF com diferentes reatividades; neste intrigante estudo, aCL e anticorpos com propriedades de AL puderam ser purificados separadamente do plasma de pacientes com SAF(47). Outros pequisadores sugerem que o AL se acopla a um complexo que inclui FL de carga negativa e protrombina, enquanto os alvos seletivos dos aCL são FL de carga negativa(48).

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