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Editorial

Reumatologia e injúrias esportivas


Wiliam Habib Chahade
Diretor do Serviço de Reumatologia do HSPE-FMO. Monitor Científico da OMS (Genebra) para a América do Sul da "The bone and joint decade 2000-2010".

Qualificado como o profissional da saúde com formação mais adequada para o atendimento clínico de patologias músculos-esquelética (ME), o reumatologista já se depara com mais um desafio na sua formação curricular: estar preparado para ampliar seu campo de concentração e de atuação ao necessitar capacitar-se para desenvolver uma nova subespecialização, que se afirma em vários países, iniciando-se entre nós, voltada para a profilaxia, o diagnóstico e o tratamento de injúrias clínicas que ocorrem com a prática, muitas vezes, desorientada de atividades esportivas. Torna-se claro que a reabilitação cirúrgica é de responsabilidade do ortopedista que, quando possível, será também um profissional experiente nesta área.

Sendo assim, vou tecer alguns comentários gerais sobre a realização de exercícios, populares entre nós, tendo como objetivos melhorar a qualidade de vida e aumentar a longevidade, assim como sobre alguns procedimentos que devemos estar atentos.

Entre os mais utilizados estão a caminhada e a corrida. Saudáveis efeitos destas modalidades incluem melhores condicionamentos cardiopulmonar e de saúde mental (evidenciada por menor incidência de depressão), ao lado do controle da ansiedade (maior senso de tranqüilidade)(3). Não há dúvidas de que a prática regular de exercícios leva a diminuição das causas de mortalidade precoce, de incapacidades, de hipertensão, de diabetes, de isquemias, de osteoporose, de câncer, ao lado de melhor qualidade de sono e controle do peso, da atividade sexual, do apetite e condicionar estrutura músculo-esquelética mais estável. No entanto, algumas conseqüências danosas à saúde podem ocorrer e devemos conhecê-las. Estas incluem riscos: de morte súbita, de injúrias ME, além de múltiplos danos articulares(1).

Cerca de aproximadamente 45% a 70% dos que praticam a corrida, apresentam, anualmente, algum dano osteoarticular ou muscular, e precisamos saber manejá-los. É necessário, para o especialista, reciclar os conhecimentos consensuais em medicina esportiva e acompanhar seu desenvolvimento após o aprendizado inicial nos cursos curriculares de graduação e de pós-graduação (em particular, durante a realização do curso de residência).

A maioria das lesões em corredores são decorrentes, tanto em adultos como em crianças, do exagero e de erros do treinamento e, em geral, por microtraumas repetitivos. Entre os principais diagnósticos encontramos a síndrome dolorosa patelofemural, as fraturas de estresse e a síndrome do estresse tibial(1,2). Os principais fatores de riscos podem ser divididos em extrínsecos (erros na orientação do treino, calçados velhos e inadequados, irregularidades da superfície do terreno, entre outros) e intrínsecos (desequilíbrios posturais biomecânicos, flexibilidade comprometida, como exemplos).

Na história clínica da lesão do corredor devem ser incluídos a distância corrida/semana, o tipo de passo, qualquer alteração na intensidade, duração ou distância da corrida, o tipo de superfície utilizada etc. Súbita modificação na duração ou intensidade do treino deixa o corredor em risco de desenvolver fratura de estresse, tendinite ou fasciíte(1,2). O exame físico nestes casos, além de observar a área dolorosa focal e aquelas adajcentes, deve avaliar também o alinhamento e a flexibilidade(3).

Embora as relações entre injúrias específicas e anormalidades estruturais sejam controversas, 20% a 40% das lesões são diretamente associadas a estas alterações da estrutura física. Algumas regras ou mandamentos para danos ME que acontecem em corridas devem ser lembrados (Tabela 1). Outro aspecto na formação do reumatologista se relaciona ao seu conhecimento e experiência na indicação de órteses, que freqüentemente ajudam a grande maioria dos corredores com determinadas queixas, nos quais o repouso e o alongamento são ineficazes. Para finalizar é interessante chamar a atenção das conseqüências tardias da prática regular da corrida ou de exercícios articulares e musculares; ao mesmo tempo que eles promovem melhores condições cardiovasculares e outros benefícios para a saúde podem, também, ser deletérios para as articulações? Em geral acreditamos que não quando bem realizados por corredores não profissionais com articulações saudáveis. Entretanto, há possível associação entre corrida competitiva e o desenvolvimento de osteoartrose de joelho(s) e/ou de quadril(is). Além do mais, é importante guardar que naqueles casos com irregularidades radiográficas articulares há risco aumentado de desenvolverem artrose.

Os reumatologistas devem estar aptos para prevenir e tratar estas injúrias esportivas, ao orientar corretamente seus pacientes. Em geral, o repouso, o tratamento sintomático, o emprego de órteses, a correção de possíveis anormalidades biomecânicas estruturais e de treinamento e o gradual aumento da carga na reabilitação podem ser os principais e satisfatórios cuidados.

Tabela1

Bibliografia

1. Ballas MT, Tytko J, Cookson FD - Common overuse running injuries: diagnosis and management. Amer Fam Physician, 52:2473-80, 1997.
2. Guten GN - Running injuries. Philadelphia, WB Saunders, 1997. p.1-3.
3. Wernicke AG & Panush RS - Running and the musculoskeletal system. Bull Rheum Dis, 50(11):1-4, 2001.

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