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Febre Reumática
Elementos básicos de diagnóstico clínico da
febre (doença) reumática

A febre reumática (FR) ou doença reumática, como era descrita por L.V. Decourt(4), é uma doença sistêmica, que resulta da resposta imune desencadeada pela infecção causada pelo Streptococcus beta-hemolítico do grupo A nas vias aéreas superiores. Ainda tem incidência preocupante entre nós, afetando principalmente crianças acima de cinco anos de idade e adolescentes, mas também acometendo adultos. Convivemos com excesso de falsos diagnósticos e, por outro lado, retardo ou erros diagnósticos nos verdadeiros casos de FR. Acreditamos que em Reumatologia, talvez seja essa enfermidade, a que enseja as maiores dificuldades para o correto diagnóstico. Para facilitar o diagnóstico, recordaremos seus aspectos clínicos mais expressivos e os critérios diagnósticos atualizados.

A abordagem diagnóstica deve levar em conta as seguintes apresentações:
1. A doença aguda;

2. A coréia;

3. Cardite indolente;

4. Recorrência.

A FR aguda apresenta manifestações clínicas significantes de intensidade variável. Após um período silencioso de duas a três semanas que sucede a infecção de garganta, há o abrupto surgimento de alterações constitucionais, tais como febre, indisposição e palidez.Embora inespecífica, a palidez é frequente, persistente até o controle da crise, exigindo diagnóstico diferencial com enfermidades consumptivas.

Nesta fase podem surgir os típicos sinais e sintomas, que se constituem nas manifestações principais dos critérios de Jones(3): artrite, cardite, coréia, eritema marginado e nódulos subcutâneos. Outras possíveis manifestações incluem artralgia, epistaxis, serosite, pneumonite, nefrite e encefalite.

A artrite é a mais frequente manifestação, presente em 80% dos casos(2,4,6,7,8,14,15), descrita como dolorosa, migratória e de curta duração. Geralmente, mais de cinco articulações são atingidas, de preferência as grandes articulações (joelhos, tornozelos, cotovelos, punhos e ombros). A artrite pode ser aditiva e simétrica, persistindo por semanas, se não tratada adequadamente. Monoartrite, oligoartrite e comprometimento das pequenas articulações das mãos e pés são menos frequentes. Artrite da primeira metatarsofalangeana e entesopatia podem aparecer ocasionalmente (2,11,14). Em cerca de 20% dos casos há acometimento do eixo vertebral, também de modo migratório ou aditivo, notando-se lombalgia e cervicalgia, às vezes com limitação funcional(2,6,14).

Nílzio Antônio da Silva
Professor titular da Disciplina de Reumatologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás. Ex-médico residente do Serviço de Reumatologia do HSPE-FMO.

A mais grave manifestação é a cardite, quase tão frequente quanto a artrite, que pode causar a morte nesta fase aguda ou quando em fase crônica(4,8,14,15). Qualquer camada do coração pode ser acometida, mas predominam as lesões valvulares. Raramente ocorre pericardite ou miocardite isolada. Os principais sinais clínicos são taquicardia, sopros, arritmia, atrito pericárdico. Insuficiência cardíaca na fase aguda é rara, ocorrendo devido à miocardite(4,10). Sopro sistólico apical, rude, com irradiação para as linhas axilares, e sopro diastólico basal são os sinais mais comuns provocados por valvulite, nesta doença(2,4,8). A pericardite frequentemente é assintomática, mas pode causar, além do atrito, dor torácica e hipofonese de bulhas.

A coréia de Sydenham ocorre em 30% dos casos, geralmente como manifestação tardia, meses após a infecção de garganta. Cardite ou artrite acompanham 50% dos casos de coréia. Na maioria das vezes é de curso benigno, porém a evolução pode durar mais de dois anos.

Os nódulos subcutâneos são observados em 9% dos casos, medem de 0,5 a 2 cm de diâmetro, são firmes, indolores, isolados ou em grupos. São palpáveis, mais comumente, ao longo das superfícies extensoras articulares, proeminências ósseas, tendões, dorso dos pés, região occipital e na linha espondílea. Nódulos menores são melhor palpáveis com a flexão da área onde se localizam. Têm duração de poucos dias e sua presença está associada à cardite(1,3,5).

O eritema marginado é uma lesão cutânea vermelho-rósea, com centro mais claro, decontornos arredondados e irregulares,visível no tronco e face interna dos braços e coxas. Ocorre em 7% dos casos, não é pruriginoso, desaparece em poucos dias, sendo muito específico para o diagnóstico de FR aguda. Sua presença é também sugestiva de cardite coexistente(14).

 

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