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Editorial

A Terapêutica alternativa e/ou complementar em Reumatologia


Wiliam Habib Chahade
Diretor do Serviço de Reumatologia do HSPE-FMO. Monitor Científico da OMS (Genebra) para a América do Sul da "The bone and joint decade 2000-2010".

Nas últimas semanas, chamou-nos a atenção algumas observações e publicações acerca do papel de tentativas terapêuticas alternativas e/ou complementares em enfermidades reumáticas, ao tentar realçar que a maioria das propostas eram inúteis e poderiam mascarar doenças graves evolutivas, além de dificultar e atrasar seus diagnósticos.

Inicialmente, vimos no "site" www.jointandbone.org, no final de abril do ano corrente, um questionamento sobre a aceitação ou a recomendação por médicos da utilização de condutas alternativas (você encoraja seus pacientes a utilizarem terapêuticas alternativas ou complementares?), na prática reumatológica. A resposta foi dada como negativa por mais de 66% dos profissionais que responderam o questionamento.
Ao mesmo tempo, a Revista Veja publica em sua edição 1749, de 1º de maio de 2002, que "as bolinhas da medicina chinesa, a massagem no pé da reflexologia, as ervas da fitoterapia e os campos eletromagnéticos estão disputando espaço com o clássico estetoscópio". Estima-se, diz a reportagem da Veja, "que quatro milhões de brasileiros utilizam alguma forma de terapia alternativa para tentar curarem seus males". Por sua vez, a Associação Brasileira de Medicina Complementar calcula que existam cerca de 50 mil terapeutas alternativos em atividade no nosso país. No seu A a Z das terapias alternativas, a Veja salienta que a acupuntura e a homeopatia, incluídas nesta análise, funcionam em situações bem indicadas, que não é nenhuma novidade.

Neste mesmo período, Panush publica um editorial no Journal of Rheumatology(1), no qual faz interessantes considerações que merecem reflexões.
Comentando o grande crescimento da procura e utilização destes procedimentos nos EUA, nos últimos anos, V. Herbert citado por Panush(1), diz que "eles estão procurando diamantes no lixo. A verdadeira história não é que a medicina alternativa tenha chega.

Voltando à Reumatologia perguntamos: qual o espaço que deve ser preenchido pelas condutas alternativas e complementares? Provavelmente um espaço muito pequeno. Não vejo nenhum avanço significativo, cientificamente defendido, para ser rotineiramente recomendado em enfermidades reumáticas.
Muitas promessas têm sido veiculadas(4,5), como ervas (exemplo, extrato da planta Uncaria tomentosa(4) - conhecida como "unha de gato") para o tratamento da artrite reumatóide. No entanto seus resultados são modestos, expressados por aqueles que as utilizaram.
Deste modo, se a acupuntura pode minimizar, em algumas situações clínicas de enfermidades reumáticas, manifestações dolorosas, ela está longe de modificar a história natural da osteoartrose ou da artrite reumatóide.

Continuamos com interesse de ver como estas novas proposições se desenvolvem e quais suas verdadeiras atuações e utilidades na prática reumatológica. Vários e conhecidos pesquisadores de prestígio em nossa área de concentração estão dedicados, em seus estudos, em esclarecer com avaliações rigorosas científicas o que há de verdade no que vem sendo divulgado. Esperamos que surjam novas luzes. No entanto, estou cético, embora de olhos bem abertos. Considero o que se fala, mas espero validação científica! Continuo atrás de diagnósticos precoces e de tratamentos bem planificados à luz de conhecimentos baseados em evidências oriundas da clínica bem praticada e da investigação bem conduzida. Não desprezamos o saber que a aspirina e a colchicina vieram, respectivamente, do salgueiro e do açafrão e, até há pouco tempo, não podíamos imaginar que estaríamos hoje tratando úlceras gástricas com antibióticos.

Veremos assim, com o futuro, o que diremos sobre a medicina alternativa e complementar em Reumatologia. No momento, nada ou muito pouco temos para acrescentar.
Em sua visão, Panush realça(1,2):
- Se parece ser muito bom para ser verdade, é verdade;
- Se nada foi lido na literatura científica, não deve ser considerado;
- Se seu primeiro contato com ela foi com a mídia, notícia de leigos ou de seus pacientes, não é válido. Não existe segredo em boa medicina ou boa ciência;
- Não há descobertas importantes em Reumatologia em relação a medicina alternativa ou complementar.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. Panush RS - Shift Happens: complementary and alternative medicine for rheumatologists (editorial). J Rheumatol 29:656-8, 2002.
2. Panush RS (editor) - Complementary and alternative therapies for rheumatic disease. Rheum Dis Clin North Am 25:789-968, 1999.
3. Astin JA - Why patients use alternative medicine: results of a national study. JAMA 279:1548-53, 1998.
4. Mur E, Hartig F, Eibl G, Schirmer M - Randomized double-blind trial of an extract from the entacyclic alkaloid-chemotype of Uncaria tomentosa for the treatment of rheumatoid arthritis. J Rheumatol 29:678-81, 2002.
5. Broer J, Behnke B - Immunosuppressant effect of IDS 30, a stinging nettle leaf extract, on myeloid dendritic cells in vitro. J Rheumatol 29:659-66, 2002.

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