Diagnóstico diferencial das cervicalgias
INTRODUÇÃO
O conhecimento da coluna cervical e suas patologias inerentes é indispensável ao clínico, uma vez que estas podem manifestar-se desde queixas inespecíficas como cefaléia e mialgias difusas, até quadros nítidos de mielorradiculopatias, com impotência funcional importante. Devemos ter em mente as inúmeras patologias que podem acometer a coluna cervical, citando traumatismos, processos inflamatórios, degenerativos e neoplásicos, além da gama de diagnósticos diferenciais com outras condições da medicina interna (endócrinas, metabólicas, hematológicas etc.) que se podem apresentar com dor cervical. A prevalência de cervicalgias no âmbito da medicina ocupacional vem aumentando significativamente, sendo considerada como um dos grandes problemas da sociedade moderna(2).
EPIDEMIOLOGIA
Existe uma grande dificuldade em obter dados fiéis para traçar um perfil da prevalência das cervicalgias visto que se trata de um grupo de patologias com aspectos clínicos multifatoriais, envolvendo fatores de risco individuais, como caracteres físicos e psicossociais, além de fatores relacionados a ergonomia e atividades laborativas(1,4).
A cervicalgia é menos freqüente que a lombalgia. Sua prevalência atual na população geral é estimada em 29% nos homens e 40% nas mulheres, sendo que estes índices podem ser ainda maiores quando avaliamos populações selecionadas de acordo com atividades exercidas no trabalho(3). Nos casos de acidentes automobilísticos, a condição conhecida como síndrome do chicote (Whiplash) apresenta uma incidência variável de 18% a 60%(9).
Embora haja uma clara relação entre as queixas músculo-esqueléticas e fatores ocupacionais, muitos estudos apresentam baixa qualidade metodológica, sendo que até o presente momento existem evidências positivas de cervicalgias relacionadas com posturas fixas e prolongadas, curvatura exagerada do tronco, flexão cervical acentuada durante as atividades,ergonomia inadequada e atividades que envolvam vibração do segmento mão-braço(1).
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Silvio Figueir Aranha
Chefe do Grupo de Estudos da Coluna Vertebral e Preceptor de Ensino do Serviço de Reumatologia do HSPE-FMO.
Roberta de A. Pernambuco
Médica Residente (R3) do Serviço de Reumatologia do HSPE-FMO.
A maioria dos estudos indica a necessidade urgente de orientação e programas de reeducação postural, com finalidade de diminuição de custos advindos das síndromes dolorosas cervicais. Estimativas da Holanda mostram gastos diretos e indiretos de cerca de US$ 4 milhões ao ano com tais condições(4).
ANATOMIA E BIOMECÂNICA
A coluna cervical está envolvida com o processo de sustentação e movimentação da cabeça, proteção das estruturas neurais e vasculares. Estima-se que a mobilização da coluna cervical ocorra 600 vezes por hora ou a cada 6 segundos(16).
É constituída por sete vértebras, sendo que as duas primeiras (atlas e axis) apresentam propriedades distintas das restantes. O atlas tem a forma de anel, não possui corpo vertebral e se articula com a base do crânio através da articulação occípito-axial, sendo responsável por grande parte do movimento sagital da coluna cervical. O axis, a segunda vértebra, possui proeminência que emerge de seu corpo vertebral, chamada processo odontóide, o qual se projeta para o interior do atlas formando um pivô sobre o qual a articulação atlanto-axial consegue efetuar a rotação do crânio; entre estas duas vértebras não existe disco intervertebral, sendo que são separadas e sustentadas por diversos ligamentos internos.
As demais vértebras cervicais, de C3 a C7, são mais homogêneas, possuem corpo vertebral anterior e arco neural posterior, sendo que se diferenciam das vértebras torácicas e lombares por apresentarem o forame transverso, através do qual passa a artéria vertebral.
Os corpos vertebrais são separados pelos discos intervertebrais, que são compostos por duas porções: uma central, chamada de núcleo pulposo, o qual é constituído
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