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Rina Dalva Neubarth Giorgi
Médica chefe da Seção de Diagnóstico e Terapêutica do Serviço de Reumatologia do Hospital do Servidor Público Estadual “Francisco Morato de Oliveira” HSPE-FMO.
Roberta de Almeida Pernambuco
Médica residente (R3) do Serviço de Reumatologia do HSPE-FMO.
Raquel Leitão de Macedo
Médica residente (R2) do Serviço de Reumatologia do HSPE-FMO.
Renata Ferreira Rosa
Médica residente (R2) do Serviço de Reumatologia do HSPE-FMO.
Eritema nodoso
O eritema nodoso (EN) é uma erupção cutânea nodular, dolorosa, resultante de uma reação inflamatória do tecido subcutâneo subjacente acometendo principalmente a face extensora dos membros inferiores(1).
Foi descrito inicialmente por Robert William em 1798, adquirindo importância a partir do século XX devido à sua associação com uma variedade de doenças como faringite estreptocócica, tuberculose e sarcoidose; tornando-se necessária a busca de sua etiologia(2).
Acomete mais freqüentemente o sexo feminino em uma proporção de 2-3:1, com pico de incidência de 20 a 40 anos(1,3). Num estudo restrospectivo no período de 16 anos realizado no Hospital do Servidor Público Estadual (HSPE) o sexo feminino foi predominante em 94,9% dos casos e o masculino em apenas 5,1% dos pacientes. A faixa etária variou de 15 a 78 anos, com predomínio na terceira década em 27,5% dos casos (Gráfico 1). Na literatura há relatos da associação do gene HLA-B8 com maior suscetibilidade a esta manifestação cutânea(4).
A patogênese do EN é desconhecida, mas esta é representada por uma forma de hipersensibilidade mediada por células e é desencadeada a partir da interação exacerbada entre o mecanismo imune e fatores desencadeantes, tais como agentes infecciosos, medicações e doenças malignas.

Gráfico 1 - Incidência de eritema nodoso quanto a faixa etária.
No HSPE o eritema nodoso foi considerado idiopático em 42,8% dos casos, apresentando uma causa aparente em 57,2% dos pacientes. As causas foram variáveis, predominando doenças infecciosas e desordens crônicas, destacando-se a estreptococia em 12% dos casos, tuberculose em 10% dos pacientes e sarcoidose em 4% dos casos; outras afecções também relacionadas foram a doença de Crohn, estrongiloidíase, infecção do trato urinário e síndrome Sweet (Gráfico 2).

Gráfico 2 - Incidência de doenças associadas com eritema nodoso.
A lesão inicial é caracterizada por um processo inflamatório infiltrativo de linfócitos e macrófagos na região septal do panículo gorduroso, seguido da formação de células gigantes e granuloma. Esta última pode ser notada na tuberculose e exemplifica a resposta tecidual do hospedeiro à presença de antígeno ou de imunocomplexo(1,5).
Clinicamente, caracteriza-se por nódulos dolorosos, únicos ou múltiplos, medindo de 0,2 a 2 cm (raramente chegando a 10 cm), situados na face anterior dos membros inferiores, principalmente em tornozelos e joelhos, numa distribuição simétrica, sendo incomum em tronco, membros superiores e face(6). Os nódulos variam gradualmente de coloração do vermelho ao amarelo, de acordo com sua fase evolutiva. Em indivíduos de pele negra, o EN surge como lesões hiperpigmentadas(1,3) (Figura 1).

Figura 1 - Eritema nodoso.
Na convalescença, os nódulos não ulceram e chegam a curar sem cicatrizes.No HSPE na evolução clínica a maioria dos casos cursou sem manifestações clínicas, 59,3% e 40,7% dos pacientes apresentaram manifestações sistêmicas e articulares. Destas, 27,5% foram representadas por febre e artralgias e 13,2% por artrites. A localização predominante das lesões foram os membros inferiores em 97,9% dos casos, seguida de 7% nos membros superiores e 1% na face, na forma de síndrome de Sweet (Gráfico 3).

Gráfico 3 - Incidência de localização das lesões.
Além do quadro cutâneo, os pacientes também apresentam manifestações sistêmicas em 70% dos casos, como febre, fadiga e astenia(3,7). Cerca de 50% dos pacientes ou mais têm acometimento articular que geralmente precede a lesão cutânea. A artrite associada a febre se inicia 2 a 4 semanas antes do início do rash., sendo esta oligo ou poliarticular, com ou sem derrame, na qual observa-se um líquido sinovial com escassez de células inflamatórias(4,6).
A sinovite cessa concomitantemente com as lesões de pele; porém, a artralgia e a rigidez podem persistir por mais de 6 meses(1).
O curso da doença aguda é autolimitado, com resolução do quadro dentro de 6 a 8 semanas(8). No seguimento dos pacientes do estudo realizado no HSPE, 45 apresentaram o eritema nodoso como manifestação única, 23 pacientes cursaram com recidiva do quadro e 20 perderam o seguimento.
Diagnóstico
O seu diagnóstico é baseado na história clínica e exame físico geral, sendo complementado pela biópsia profunda da lesão, que revela uma paniculite septal.
A avaliação inicial deve incluir cultura de orofaringe, dosagem de ASLO, RX de tórax, PPD e VHS(9). Cerca de 75% dos casos apresentam VHS elevado, porém este diminui seu valor uma vez que o rash tenha evanescido(1).
O melhor modelo preditivo de EN secundário inclui achados anormais em RX de tórax, história clínica prévia de infecção de trato respiratório ou diarréia, exame físico com evidência de sinovite, alterações significativas em dois títulos de ASLO consecutivos com intervalo de 2 a 4 semanas e PPD reator(10). No estudo realizado no HSPE, na investigação laboratorial se realizou a prova de proteína purificante derivada de tuberculina (PPD) em 60% dos casos, sendo que destes 59% apresentaram uma prova positiva; 51% das provas positivas foram forte reator e 8% fraco reator. Dos pacientes forte reator, 5% apresentaram tuberculose.
A radiografia de tórax tem seu papel na exclusão de processos infecciosos, como micoses e tuberculose, ou sarcoidose que demonstra uma linfadenopatia hilar bilateral em 50% dos casos(11).
Etiologia
No momento do diagnóstico de EN, a ausência do fator desencadeante ou de doença subjacente foi observada em 32,5%, sendo neste caso denominado idiopático(3,12).
Atualmente a sarcoidose e as infecções de vias aéreas superiores causadas pelo Streptococcus são as causas mais comuns de EN secundário(13,14,15).
Infecções
A freqüência relativa de cada agente infeccioso varia de acordo com o perfil epidemiológico de uma determinada população. A coccidiodomicose é a causa mais comum de EN no oeste e sudeste dos EUA(9). Já no caso da Escandinávia e França, destaca-se a elevada incidência de infeccções por Yersinia associado ao de EN e artrite reativa(16) (Quadro 1).
Infecções estreptocócicas
O EN surge como uma reação alérgica induzida pelo Streptococcus, 2 a 3 semanas após a infecção de vias aéreas superiores, podendo estar associado a febre reumática(17).
Tuberculose
As lesões surgem no decurso da primo-infecção, sendo mais comumente observada em crianças e adolescentes(17).
Hanseníase
O EN constitui quadro reacional da forma lepromatosa(17).
QUADRO 1 - Infecções
Vírus
Hepatite B(18) e C(9,21)
Herpes simplex(19)
Citomegalovírus(20)
Epstein-Barr(1,21)
Bactérias
Streptococcus pyogenes (infecções respiratórias)(23,21)
Chlamydia trachomatis (lymphogranuloma venerum)(21,24)
Chlamydia psittaci (psitacose)(21,25)
Neisseria meningitidis (meningite)(1,19,21)
Neisseria gonorrhoeae (gonorréia)(1)
Bartonella henselae (doença da arranhadura do gato)(21,26)
Corynebacterium diphtheriae (difteria)(19,21)
Campylobacter spp. (gastroenterite)(21,27)
Haemophilus ducreyi (cancróide)(19,21)
Yersinia spp. (gastroenterite)(21,28)
Treponema pallidum (sífilis)(1,21,29)
Mycobacterium tuberculosis (1,21,30)
Mycobacterium leprae (hanseníase)(1,21)
Mycobacterium marinum (micobacteriose atípica)(19,21)
Mycoplasma pneumoniae (pneumonia)(1,31)
Francisella tularensis (tularemia)(1,32)
Leptospira interrogans (leptospirose)(33)
Febre Q
Salmonella sp. (salmonelose)
Brucella sp. (brucelose)(36)
Fungos
Crytococcus neoformans (criptococose)(21)
Blastomyces dermatitidis (blastomicose)(1,21,37)
H. capsulatum (histoplasmose)(1,21,38)
C. simmitis (coccidioidomicose)(1,21,39)
Parasitas
Giardia lamblia (giardíase)(40)
Ancylostoma duodenale (ancilostomíase)(19)
Wuchereria bancrofti (filariose)(21)
Entamoeba hystolitica (amebíase)(40)
Toxoplasma gondii (toxoplasmose)(41)
Drogas
A tentativa de correlacionar fármacos como fatores desencadeantes de EN se torna difícil, visto que estes podem ser administrados em doenças sabidamente associadas ao EN. O uso de sulfonamidas, brometos e contraceptivos orais é citado como causa de EN. Outras drogas como penicilinas, barbitúricos e salicilatos, têm sido mencionadas como prováveis agentes, embora raramente se comprove tal relação (Quadro 2).
Sarcoidose
O EN acomete acima de 39% dos casos de sarcoidose(50). A presença de linfoadenopatia hilar e EN (sarcoidose aguda) prediz excelente prognóstico, havendo remissão do quadro em 90% dos pacientes, diferindo de outras apresentações como a doença pulmonar parenquimatosa ou lúpus pérnio. Quando há artrite aguda concomitante, evidencia-se a tríade definida como síndrome de Loefgren(1).
A associação de tuberculose e sarcoidose aguda não é comum de ser observada, mas deve ser considerado em crianças abaixo de 5 anos e populações em que sua incidência é elevada. Normalmente o teste de Mantoux se apresenta forte reator, tornando-se negativo quando associado a sarcoidose aguda(51).
Doenças malignas
Existem evidências de EN associado a linfoma, leucemia, sarcoma, carcinoma renal e carcinoma pélvico pós-radioterapia(52). O achado radiológico de linfadenopatia hilar paratraqueal direita pode aumentar a suspeita de linfoma, no entanto, a sarcoidose é ainda o diagnóstico mais provável. O EN deve ser considerado como sinal de alerta para recidiva de linfoma em pacientes com história prévia(53).
Doença inflamatória intestinal
O EN pode ser desencadeado durante a fase aguda das doenças inflamatórias intestinais, como a colite ulcerativa e doença de Crohn, com dor abdominal e diarréia. O intervalo médio de tempo entre a colite ulcerativa crônica e o surgimento do EN é de 5 anos, sendo controlado o quadro cutâneo com a terapêutica adequada para a colite. O EN é evidenciado em 3% dos casos de doença inflamatória crônica, sendo mais comum na doença de Crohn que na colite ulcerativa(54,55).
Síndrome de Behçet
O EN clássico pode ser observado durante a atividade da doença, porém manifestações como flebite ou vasculite podem ser erroneamente interpretadas como EN. Neste caso, a biópsia de pele desempenha papel importante(1).
Lúpus eritematoso sistêmico
O aparecimento de nódulos profundos que se tornam depressíveis é observado no lúpus eritematoso sistêmico profundo, sendo feito o diagnóstico diferencial com eritema nodoso. O EN clássico raramente é observado.
Gravidez
Apesar de raro, pode ser observado no primeiro e no início do segundo trimestre na forma de lesões nodulares eritematosas, com morfologia e localizações típicas(56). A ocorrência de EN em associação com alterações hormonais, sugere que estrógenos, em algumas circunstâncias, possam ser diretamente responsáveis pela doença(44).
QUADRO 2 - Drogas associadas ao EN
Sulfonamidas(1,42)
Penicilinas(1,43)
Contraceptivos orais(1,44)
Sais de ouro(1,45)
Prazosin(1)
Salicilatos(1,43)
Brometos(1,45)
Iodetos(1,45)
Minociclina(46)
Fenitoína(22)
Clorotiazida(22)
Nitrofurantoína(19)
D-penicilamina(47)
Talidomida(48)
Isotretinoína(49)
Interleucina 2(49)
Vacina contra hepatite B(43)
Diagnóstico diferencial
As paniculites representam um grupo heterogêneo de doenças inflamatórias, com apresentação clínica semelhante sendo necessário estudo histopatológico para diagnóstico específico(52).
Eritema induratum de Bazin é um tipo incomum de paniculite, de etiologia desconhecida, originalmente considerado resposta de hipersensibilidade a tuberculose, que acomete predominantemente mulheres menopausadas e adolescentes e se apresenta como nódulos eritematosos, levemente dolorosos, que usualmente ulceram deixando lesões cicatriciais(57).
A doença de Weber-Christian (paniculite recidivante nodular febril) é uma paniculite lobular aguda, que evolui em surtos, sendo raramente associada a manifestações sistêmicas (mal-estar, febre, artralgias, náuseas, vômitos, dor abdominal e hepatomegalia podem ocorrer). Caracteriza-se por nódulos ou placas pouco dolorosas, com distribuição simétrica, ocorrendo freqüentemente em dorso e coxas, podendo evoluir com atrofia e depressão localizada, raramente há necrose do tecido subcutâneo, com eliminação de substância oleosa(58,59).
Paniculite lobular pode estar associada a carcinoma de pâncreas ou pancreatite. Nódulos eritematosos depressíveis, dolorosos podem ocorrer em qualquer localização, com predileção para os membros inferiores. Ocasionalmente há drenagem de secreção oleosa das lesões. Artrite ocorre em 60% dos casos e poliserosite pode manifestar-se como pleurite, pericardite ou sinovite(58,60).
Paniculite factícia pode resultar de trauma ou injeção de substâncias estranhas sendo uma forma de paniculite secundária de difícil diagnóstico(60).
Infecções micóticas profundas em indivíduos imunossuprimidos podem mimetizar paniculite primária(57). Goma sifilítica, bem como nódulos da esporotricose são geralmente unilaterais(61).
Síndrome de Sweet (dermatose neutrofílica febril aguda) e EN são dermatoses reativas tendo várias condições associadas em comum. Embora pouco freqüente, há relatos do surgimento concomitante das duas dermatoses (62,63).
Poliarterite nodosa cutânea caracteriza-se por nódulos subcutâneos eritematosos, dolorosos, múltiplos que ocorrem preferencialmente em membros inferiores, muito semelhante ao eritema nodoso, sendo o diagnóstico diferencial feito através da biópsia da lesão, a qual apresenta histologia compatível com vasculite necrosante.
Tromboflebite superficial e profunda e erisipela também devem ser diferenciadas de EN(9).
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