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Alessandra de Sousa Bras
Pós-graduanda do Mestrado em Medicina Interna – Reumatologia do CCS da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
Ex-residente do Serviço de Reumatologia do Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo “Francisco Morato de Oliveira”.
Ângela Luzia Branco Pinto Duarte
Professora titular de Reumatologia do Departamento de Medicina Clínica do CCS da UFP.
Introdução
A imunogenética diz respeito aos mecanismos genéticos relacionados aos fenômenos imunológicos. Para responder com eficácia a uma agressão por antígenos, o indivíduo deve ser capaz de distinguir entre o que lhe é “próprio” e “não próprio” (estranho) e montar uma defesa específica contra o “invasor”. O sistema genético primordialmente responsável por esta distinção (resposta imune) é o complexo de histocompatibilidade principal (MHC)(1).
O MHC é o principal complexo de histocompatibilidade no homem e o único sistema genético convincentemente ligado à suscetibilidade a doenças auto-imunes. Seus genes expressam uma família de proteínas denominadas moléculas ou antígenos do MHC, ou antígenos HLA, componentes do complemento, além de outras moléculas envolvidas na resposta imune.
A hipótese mais aceita para a associação do MHC com doenças é que certas moléculas de HLA apresentam um peptídeo “patogênico” ou peptídeos que podem provocar uma resposta imune deletéria por parte de linfócitos T específicos. Alternativamente, a suscetibilidade para as doenças pode ser determinada por variações na estrutura receptora das células T(2).
Complexo de histocompatibilidade principal (MHC)
Estrutura
O MHC é uma região genética encontrada em todos os mamíferos, cujos produtos são primariamente responsáveis pela rápida rejeição de enxertos entre indivíduos e funcionam na sinalização entre linfócitos e células apresentadoras de antígeno(3). Foi demonstrado pela primeira vez em camundongos, sendo homólogo ao humano e ocupando um pequeno segmento no cromossomo: o loco H-2(4). Em humanos, este complexo foi chamado de antígeno leucocitário humano (HLA), por ter sido demonstrado inicialmente em leucócitos humanos, e se localiza no braço curto do cromossomo 6(1,5).
O conjunto dos genes de HLA no cromossomo (haplótipo) apresenta-se intimamente ligado, movendo-se como uma unidade e são herdados em bloco(1,5). Cada haplótipo de HLA está formado por cinco locos principais: HLA-A, HLA-C, HLA-B, HLA-D e HLA-DR (Figura 1), cada um com diferentes especificidades antigênicas. Os locos HLA-A, HLA-C e HLA-B são chamados de classe I e os antígenos que eles expressam são encontrados na superfície das células somáticas (exceto nos eritrócitos). Os antígenos codificados pelos locos da classe II (HLA-D e HLA-DR), geralmente, limitam-se às células do sistema imune, linfócitos B, macrófagos, células dendríticas e alguns tipos de linfócitos T(3,5,6).

Figura 1 - Estrutura do complexo gênico HLA, com ênfase para os locos DR, DP e DQ.
Entre os locos de classe I e II são encontrados vários genes com potencial relevância para o sistema imune (classe III). Estes incluem os fatores de necrose tumoral a e b (TNF-a e TNF-b) e os componentes do sistema de complemento (C2, C4A, C4B e fator B de properdina). Mais recentemente, genes envolvidos na apresentação de antígenos pelas moléculas da classe II do HLA têm sido mapeados na região de classe II, designados DMA e DMB; sua exata função permanece desconhecida(3,5).
Os genes do HLA de classe I em humanos são encontrados no lado telomérico do segmento cromossômico, codificando as cadeias pesadas dos antígenos HLA. Os HLAs A, B e C estão entre os genes mais polimórficos encontrados nos seres humanos e são referidos como clássicos. Os não clássicos incluem o HLA-G, cuja expressão parece estar limitada ao trofoblasto placentário, e os locos HLA-E e F que codificam moléculas relativamente não polimórficas expressadas em muitos tecidos(5).
Os da classe II estão situados próximo ao centrômero e têm uma organização mais complicada; há três sub-regiões: DR, DP e DQ. Cada uma destas tem um número variável de genes de cadeias a e b. A sub-região DR compreende um único gene para a cadeia a (DRA) – que não exibe variação alélica, e até nove genes de cadeia b (DRb 1-9), altamente polimórficos, que variam em número entre os indivíduos de uma população. Muitos desses DRb são não funcionais ou pseudogenes (genes com estrutura homóloga aos outros, mas incapazes de serem expressos). As sub-regiões DP e DQ contêm um par de genes funcionais cada uma (um a e um b) e um par de genes que pode ou não ser funcional(5,8).
Na região de classe II há genes mais estritamente relacionados com a função do que com a estrutura do HLA. Seis destes apresentam relevância na etiologia das doenças. O LMP2 e LMP7 são dois destes genes; eles codificam componentes do complexo proteossômico que degradam proteínas a peptídeos citoplasmáticos para a apresentação dos antígenos pelas moléculas de HLA. Adjacentes aos genes LMP estão os genes TAP (TAP1 e TAP2) que codificam proteínas de transporte que carreiam fragmentos peptídicos do citosol ao retículo endoplasmático. Desta forma, sem os genes TAP os fragmentos peptídicos do citoplasma não chegarão à superfície celular. Conseqüentemente, sem os peptídeos o sistema HLA não apresentará antígenos e não ocorrerá resposta imune(9). Daí a importância funcional desses genes para a resposta imune.
Polimorfismo e nomenclatura
Uma característica importante do complexo gênico HLA é que seus locos apresentam alto grau de polimorfismo; ou seja, dentro de uma mesma espécie há um número muito grande de alelos em cada loco, cada alelo (uma das várias formas alternativas de um gene em um dado loco) presente em uma freqüência relativamente alta na população. No polimorfismo, o alelo menos freqüente é encontrado em, no mínimo, 2% da população(5,8,9,11). Por essa razão, é muito raro para dois indivíduos expressarem proteínas de MHC idênticas, dificultando a combinação entre doadores e receptores para transplantes de órgãos em humanos (exceto em gêmeos geneticamente idênticos)(1,5).
Um grau maior de polimorfismo na população geralmente aumenta a chance de que qualquer pessoa na população seja heterozigota. Adicionalmente, um maior polimorfismo do MHC em uma população diminui a chance de que um patógeno infeccioso possa se espalhar facilmente naquela população(12).
Devido ao extenso grau de polimorfismo dos genes HLA, no final dos anos 80 e início dos anos 90, o Comitê da Organização Mundial da Saúde decidiu fazer uma mudança importante na nomenclatura desses genes. Os locos de classe I mantiveram a denominação, ou seja, HLA-A, HLA-B e HLA-C, no entanto o número total de dígitos aumentou para quatro com a finalidade de abranger todo o polimorfismo já identificado. Os dois primeiros dígitos se referem ao correspondente sorológico (grupo de alelos) e os dois seguintes ao alelo específico(9). Assim, o gene que codifica a molécula HLA-B1 passou a ser denominado HLA-B*01, contendo os alelos B*0101, *0102 e *0103. Nas de classe II que possuem mais de uma cadeia polimórfica, o comitê, além de introduzir os quatro dígitos, acrescentou os nomes das cadeias a e b da molécula de histocompatibilidade, identificados com as letras A ou B. Como exemplo, o gene da molécula HLA-DRB1 passou a ser denominado HLA-DRB1*01, contendo os alelos *0101, *0102, *0103 e *0104. Uma vez que a região DR possui diversos genes polimórficos para a cadeia b, cada loco recebeu o número correspondente: HLA-DRB1 *0101, HLA-DRB2*0101, HLA-DRB3*0101, entre outros(13).
O polimorfismo dos genes DP e DQ ocorre nas duas cadeias e são designados DPA1 e DPB1 ou DQA1 e DQB1. Em alguns casos um quinto dígito é adicionado à denominação do alelo, indicando que embora exista uma substituição de um nucleotídeo no DNA genômico, a seqüência de resíduos de aminoácidos é mantida, e a diferença ocorre apenas em nível genômico(9,13).
Técnicas utilizadas na tipificação dos alelos de HLA(13)
Vários procedimentos têm sido utilizados na tipificação dos alelos do HLA. O DNA genômico é extraído das células nucleadas e, em seguida, procede-se à amplificação através da técnica de reação em cadeia da polimerase (PCR), utilizando-se sondas ou “primers” (seqüências curtas de nucleotídeos conhecidas).
No método denominado de “sequence-specific primer” (SSP) são realizadas várias reações de amplificação, cada uma delas contendo um iniciador capaz de detectar um grupo de alelos ou um alelo. Os produtos de amplificação são submetidos a uma eletroforese em gel de agarose contendo brometo de etídeo (substância fluorescente que se intercala no DNA). O gel, então, será observado por luz ultravioleta e fotografado. As bandas com cerca de 150-220 pares de bases correspondem aos produtos de amplificação específicos dos genes HLA, ao passo que as bandas com cerca de 800 pares de bases correspondem aos produtos de amplificação interna, ou controle de amplificação (geralmente um intron ou gene não-HLA).
Outro método bastante empregado utiliza conjuntos de sondas contendo seqüências específicas, denominado “sequence-specific oligonucleotide probes” (SSOP). Neste procedimento, o DNA é amplificado com um par de iniciadores que identificam uma região comum ou genérica da especificidade a ser tipificada. A molécula do DNA amplificada é desnaturada e fixada em membrana de nylon. As sondas marcadas são incubadas, separadamente, com os DNAs desnaturados em temperatura adequada para ocorrer a hibridização. Um anticorpo marcado é adicionado e reconhece a sonda que se ligou à membrana. A adição de um substrato que emite luz sensibiliza um filme radiográfico, discriminando o grupo de alelos ou um alelo específico.
Quando, com os métodos descritos, não se consegue discriminar os alelos desconhecidos, tenta-se construir novas sondas específicas, ou, então, procede-se ao seqüenciamento das bases nitrogenadas. O seqüenciamento pode ser realizado manualmente ou utilizando seqüenciador automático.
Moléculas do MHC
Estrutura
Os antígenos HLA ou moléculas do MHC estão envolvidos na rejeição de tecidos estranhos ou heterólogos. Foram inicialmente caracterizados utilizando-se alo-anticorpos produzidos em linhagem altamente endocruzada de camundongos imunizados com células de outra linhagem, também altamente endocruzada, diferindo apenas na região do MHC. Subseqüentemente, anticorpos específicos para moléculas codificadas nas sub-regiões do MHC, definidas a partir de permutas em linhagens endocruzadas, foram utilizados para mapear o MHC detalhadamente. Técnicas similares foram utilizadas na definição do HLA.
Todas as proteínas do MHC são dímeros localizados na membrana plasmática, com a maior parte da proteína no compartimento extracelular. A estrutura geral das moléculas de classes I e II é semelhante (um domínio externo, uma região transmembrana e um domínio citoplasmático), embora apresentem componentes diferentes; esta estrutura tem sido determinada utilizando difração de raios X (cristalografia)(3).
As moléculas de classe I são formadas por uma cadeia pesada (45KD), codificada pelo MHC com três domínios (a1, a2 e a3). Cada cadeia a se liga de modo não covalente a um polipeptídeo que não é codificado pelo MHC, e sim no cromossomo 15, e que pode ser detectado livre no soro. Esta pequena proteína é a b2-microglobulina que, juntamente com o domínio a3, são homólogas a um domínio C de uma imunoglobulina(3,5,7). Os domínios a1 e a2 formam um sulco ou fenda no topo da molécula, cuja função é ligar peptídeos antigênicos para posterior apresentação às células T(5) (Figura 2).

Figura 2 - Estrutura das moléculas de HLA de classes I e II.
A estrutura das moléculas de classe II é análoga à da classe I. São heterodímeros com dois domínios semelhantes aos domínios de imunoglobulina perto da membrana e dois domínios polimórficos ligadores de antígenos na porção amino-terminal mais distante da membrana. Nestas moléculas, ambas as cadeias (a e b) são codificadas pelo MHC e ambos passam pela membrana.
As proteínas MHC possuem um sítio ligador de peptídeo localizado na extremidade amino-terminal da molécula que foi demonstrado inicialmente em camundongos através da observação de uma densidade elétrica que não faz parte das moléculas de HLA, presumivelmente representando um antígeno desconhecido entre as a-hélices(4). Nas moléculas de classe I este sítio consiste de uma fenda entre duas longas a-hélices derivadas a partir dos domínios a1 e a2 que pode acomodar um peptídeo com cerca de 10 resíduos de aminoácidos. As moléculas MHC-II possuem estrutura tridimensional semelhante às de classe I, mas a saliência ligadora de antígenos acomoda peptídeos mais longos e heterogêneos. Há cerca de 15 a 20 tipos de moléculas de classe II, cada qual com seu próprio sítio ligador de antígeno. Tais moléculas parecem ser capazes de ligar e apresentar um número aparentemente ilimitado de peptídeos estranhos para as células T auxiliares ou helper (5).
No geral, as células T purificadas são incapazes de reconhecer e responder a antígenos na sua configuração nativa. Sendo assim, o reconhecimento de um antígeno citoplasmático ou estranho por uma célula T requer uma série complexa de eventos bioquímicos e celulares que são freqüentemente denominados de “apresentação de antígenos”(11). Com algumas exceções, muitos destes eventos de reconhecimento envolvem a formação de um complexo trimolecular composto por uma molécula de HLA ligada ao peptídeo antigênico, interagindo com o receptor da célula T da superfície celular, com a participação de moléculas acessórias(5) (Figura 3).
HLA-Aw68 (classe I)e HLA-DR1 (classe II)

Figura 3 - Complexo trimolecular mostrando a célula apresentadora de antígenos e o linfócito T com o complexo receptor.
Apresentação dos antígenos pelas moléculas do MHC
Os antígenos não são apresentados pelas moléculas de MHC como proteínas intactas e sim como formas processadas na superfície das células apresentadoras de antígenos (APCs). As APCs são encontradas primariamente na pele, linfonodos, baço, timo e medula óssea e transportam o antígeno de forma a estimular os linfócitos.
O processamento dos antígenos citoplasmáticos ocorre em organelas intracelulares sob a ação de enzimas proteolíticas (proteases), antes que sejam transportados para o retículo endoplasmático rugoso (RER). É no RER que as proteínas de membrana, incluindo os antígenos MHC de classes I e II são sintetizados e agregados.
Os antígenos citoplasmáticos são processados nos proteossomos, complexos proteinase-multicatalíticos ou LMP, que são organelas compostas por múltiplas sub-unidades, duas destas codificadas no MHC-II pelos genes LMP-2 e LMP-7. Após processados, os peptídeos são transportados para o RER pelas proteínas transportadoras de peptídeos, proteínas transportadoras 1 e 2 (TAP-1 e TAP-2). Os peptídeos antigênicos, então, associam-se com as cadeias pesadas de classe I e b2-microglobulina no RER e as moléculas de classe I estáveis são transportadas para a superfície celular(12).
As moléculas de classe II também são sintetizadas e formam um complexo com um polipeptídeo de cadeia constante (Li) no RER. Esta proteína é codificada por um gene fora do MHC e o complexo MHC-Li é transportado pelo complexo de Golgi, em seguida para um compartimento acídico endossomal onde ocorrerá a dissociação do Li. A molécula ab de classe II permanece por 1 a 3 horas neste compartimento até receber o antígeno exógeno e, finalmente, chegar à superfície celular.
Assim, os antígenos de classe I e de classe II são transportados no complexo de Golgi e as duas moléculas se separam na rede trans-Golgi. Em seguida, as moléculas formam vesículas que as levam à superfície celular. As de classe I vão direto para a superfície celular, e as de classe II penetram no compartimento acídico onde são carregados com o peptídeo derivado do antígeno exógeno até a superfície da APC.
Reconhecimento dos antígenos pelo linfócito T
O reconhecimento dos antígenos pelo linfócito T é fundamental para a formação e regulação de uma resposta imune adequada. Este reconhecimento é feito através do marcador definitivo de linhagem nas células T: receptor de células T (TCR).
Atualmente, existem dois tipos bem definidos de TCR: o TCR-2 (a e B) e o TCR-1 (g e d). O TCR-2 é um heterodímero com dois peptídeos ligados por uma ponte dissulfeto. Foi primeiramente definido e purificado utilizando-se anticorpos específicos marcados contra uma molécula-clone específica nas células T.
Os genes que poderiam codificar as cadeias peptídicas do TCR foram isolados a partir de bibliotecas gênicas de ácido desoxirribonucléico complementar (c-DNA), com base na sua presença em alguns clones e em outros não(3). O c-DNA é um DNA sintético feito de ácido ribonucléico do tipo mensageiro (RNA-m), utilizando a enzima transcriptase reversa originalmente isolada de retrovírus. Usando o RNA-m como molde, o c-DNA não apresenta introns e o c-DNA de eucariontes pode ser traduzido em proteínas funcionais nas bactérias. Isto se torna particularmente importante quando se clonam e manipulam genes eucarióticos em hospedeiros bacterianos(14). A seqüência dos aminoácidos deduzida a partir do seqüenciamento de nucleotídeos gênicos combinava com a seqüência parcial obtida das proteínas do TCR-2, purificadas utilizando anticorpos monoclonais. Assim, dois métodos diferentes identificaram a mesma entidade e, posteriormente, isolou-se um segundo receptor, o TCR-1.
O TCR-1 é estruturalmente semelhante ao 2, mas contém os polipeptídeos g e d. Ambos os receptores estão associados a um conjunto de cinco polipeptídeos, o complexo CD3, que origina o complexo receptor (TCR-CD3) da célula T(3).
Moléculas acessórias
A afinidade do complexo receptor das células T para o complexo peptídeo-MHC numa célula-alvo é geralmente muito baixa para mediar uma interação funcional entre as duas células. Receptores acessórios ou “marcadores celulares” são normalmente necessários para ajudar a estabelecer essa interação; quando exercem papel direto na ativação das células T para geração de sinais intracelulares, são chamados de co-receptores(5). Os linfócitos (e outros leucócitos) expressam um grande número de co-receptores em suas membranas que podem ser utilizados para distinguir várias populações celulares. Estes marcadores receberam uma nomenclatura sistemática - o sistema CD (ou grupo de diferenciação)(15).
Os mais importantes e mais estudados co-receptores nas células T são as proteínas CD4 e CD8. Ambas são proteínas transmembranas, cujas características estruturais são semelhantes àquelas das imunoglobulinas (Ig). Como receptores das células T, eles reconhecem proteínas MHC, mas, diferentes dos receptores destas células, ligam-se a partes não variáveis da proteína antigênica, longe da saliência ligadora do peptídeo. O CD4 é expresso pelo linfócito T auxiliar (helper ou Th) e liga moléculas de classe II, enquanto o CD8 é expresso pelo linfócito T citotóxico e se liga às moléculas de classe I(5).
Esses marcadores podem ser demonstrados, utilizando-se anticorpos monoclonais com sonda e exploradas pela técnica de citometria de fluxo. Na citometria de fluxo, uma suspensão de células é corada com corante fluorescente específico para detectar moléculas de superfície (no caso CD4 ou CD8) e, então, são introduzidas em uma câmara de fluxo vibratório em um aparelho separador de células ativado por fluorescência. O fluxo celular que sai da câmara é coletado em uma câmara de fluido tampão. O fluxo é iluminado pelo laser e cada célula tem seu tamanho e granulação determinados, bem como a fluorescência verde e vermelha, para detectar dois marcadores de superfície diferentes(16).
As células T com TCR-2, portanto, apresentam uma subpopulação que apresenta CD4 (principal função “auxiliar” ou “induzir” as respostas imunes - Th) e outra com o marcador CD8 que é predominantemente citotóxica. Uma vez que as células T CD4+ reconhecem seus antígenos específicos em associação com as moléculas de classe II, e as células T CD8+, com as da classe I, é a presença de CD4 e CD8 que limita ou restringe os tipos celulares com os quais os linfócitos T podem interagir(15). Este é o chamado fenômeno de restrição das moléculas de MHC.
Ativação das células T
Durante a ativação da célula T, vários componentes do complexo CD3 se tornam fosforilados nas suas porções intracitoplasmáticas. A cauda citoplasmática do complexo receptor (TCR-CD3) está associada com um membro da família Src das proteinocinases tirosino-específicas, chamadas tirosino-cinase p.56lck ou proteína lck, que fosforilam várias proteínas celulares nos resíduos de tirosina recrutando mais proteínas sinalizadoras que levam ao influxo de cálcio, ativação dos genes e o evento final que é a ativação das células T com subseqüente resposta imune deletéria por parte de linfócitos T específicos(5,17).
Associação do HLA com doenças reumáticas auto-imunes
A função das moléculas de HLA na patogênese das doenças auto-imunes tem sido investigada desde que Brewerton e cols. (1973) reconheceram que o HLA-B27 estava associado com espondilite anquilosante (EA)(18). Seguiram-se descrições de associação entre várias moléculas de classe II e doenças auto-imunes como artrite reumatóide (AR), diabetes mellitus insulino-dependente e esclerose múltipla(2).
Embora os genes do MCH estejam claramente envolvidos na predisposição genética para o desenvolvimento de muitas doenças reumatológicas, a herança destes genes não aumenta o risco para estas doenças em muitos indivíduos. Em parte porque vários genes precisem ocorrer numa determinada ordem para desencadear a doença; no entanto, até mesmo se indivíduos tenham herdado todos os genes relevantes, ele ou ela poderão, em muitos casos, não apresentar a doença.
A prova mais forte dessa afirmação é que dois gêmeos monozigóticos só apresentam lúpus eritematoso sistêmico (LES) e AR em 15% a 30% das vezes; ou seja, quando um gêmeo monozigótico tem AR, há apenas 15% a 30% de chance de que o seu irmão geneticamente idêntico desenvolva a doença. Isto mostra que a relação entre genética e doenças auto-imunes é complexa, apresentando a participação de outros fatores influenciadores da expressão da doença.
É importante realizar estudos genéticos em muitas populações diferentes antes de firmar conclusões, além do que uma associação positiva entre a doença e um alelo do HLA não significa que este alelo por si só represente um fator de risco(11). A associação positiva com o HLA indica que algum(s) gene(s) desta região confere(m) risco para a doença, já que os genes deste complexo tendem a ser herdados como uma unidade e são freqüentemente encontrados como haplótipos. Este fenômeno é conhecido como “desequilíbrio de ligação”.
Devido a essa proximidade, os genes do MHC apresentam um alto grau de desequilíbrio de ligação e, portanto, não há uma associação ao acaso, observando-se haplótipos relativamente fixos na população. A observação de um alelo associado a uma doença pode, na verdade, refletir a real associação com um outro gene muito próximo ou mesmo situado a alguma distância, mas como parte do mesmo haplótipo.
O desequilíbrio de ligação ocorre quando a freqüência de dois alelos juntos em um mesmo haplótipo excede o previsto. Como exemplo, um haplótipo comum que exibe desequilíbrio de ligação em mulheres brancas terá a seguinte combinação de alelos: A*0101 - B*0801 - DRb1*0301 (A1-B8-DR3). Este haplótipo está presente em 9% da população de uma cidade do nordeste da Europa. O alelo A1 ocorre nesta população em 17% e o B8, em 12,7%. Daí, o esperado seria encontrar apenas 12,7 x 17 = 2,1% (muito menos que o observado: 9%). O desequilíbrio de ligação é medido com a fórmula:
D Þ observado (0,09) – esperado (0,021) = 0,069 (ou 6,9%).
Desta forma, tais alelos excedem o esperado, caracterizando o desequilíbrio de ligação que é observado em várias doenças reumatológicas(7).
HLA da classe I e doenças reumáticas auto-imunes
Espondiloartropatias
Uma das mais fortes associações reportadas entre HLA e doenças reumatológicas é a associação do HLA-B27 com a espondilite anquilosante (EA). A espondilite anquilosante é uma desordem inflamatória sistêmica crônica do esqueleto axial, afetando principalmente as articulações sacro-ilíacas e a coluna vertebral e cursa com fator reumatóide negativo. É o principal representante do grupo das espondiloartropatias soronegativas; sua etiologia permanece desconhecida, mas há forte predisposição genética associada com o HLA-B27.
A prevalência da EA na população caucasiana B27 positivo é de cerca de 2%. Por outro lado, o risco de indivíduos com B27, parentes em primeiro grau de pacientes com EA e B27, desenvolverem a doença é de cerca de 11% a 29%(19). Em brancos, mais de 90% dos pacientes com EA apresentam o B27, em contraste com uma positividade de aproximadamente 8% nos indivíduos normais. Esta associação está praticamente ausente nos negros americanos e nos japoneses(20).
Até o momento, 15 subtipos de B27 já foram determinados(13). No mínimo cinco destes subtipos (01, 02, 04, 05 e 07) são conhecidamente associados com EA. Estes diferem um do outro em seis resíduos de aminoácidos (AA) nas posições 77, 80, 83, 114, 116 e 152 que ficam englobados no lado direito da fenda ligadora de antígenos. Em brancos, o alelo mais encontrado é o B*2705 que está presente em aproximadamente 90% dos indivíduos B27 positivos na população. Nos asiáticos este percentual cai para 45 a 50%. Os alelos *2701 e o *2702 são restritos às populações caucasóides; o primeiro é raro e o segundo está presente em cerca de 10% dos brancos com B27. O *2704 predomina na Ásia e o *2703 tem sido encontrado apenas nos africanos e negros americanos (este não parece estar associado com risco de desenvolvimento de EA)(7,19).
O B27 também está associado com artrite reativa / síndrome de Reiter e artropatia enteropática (outras espondiloartropatias com características específicas, mas que de modo semelhante à EA cursam com envolvimento de sacro-ilíacas, coluna vertebral e não apresentam fator reumatóide), embora com menor freqüência comparada com a EA. Em contrapartida, outros genes, em adição ao HLA-B27, têm sido associados com o desenvolvimento de psoríase e artropatia psoriásica (outra espondiloartropatia). Estes incluem o loco HLA-C e alguns alelos de HLA-DR(21).
HLA da classe II e doenças reumáticas auto-imunes
Artrite reumatóide (AR)
A AR é uma doença inflamatória crônica sistêmica que afeta sobretudo as articulações diartrodiais, de forma progressiva e grave sobretudo nas articulações periféricas. Embora de etiologia desconhecida, os fatores genéticos e ambientais controlam a progressão, a extensão e as características da resposta inflamatória, e são responsáveis pelas manifestações clínicas heterogêneas da doença.
As descrições iniciais da associação entre os genes MHC e AR foram feitas por Stastny em meados da década de 1970. Subseqüentemente, numerosos estudos associaram a AR com o HLA-DRb1*04 (DR4) em muitas populações, com risco relativo estimado entre 3 e 10. Nos anos 80, diferentes alelos DR4 foram definidos através de tipagem mista de linfócitos em cultura e seqüenciamento de DNA(7).
O HLA contribui com no mínimo 25% do risco genético para AR. A prevalência de AR em indivíduos que têm um irmão com AR é de quatro a oito vezes maior que na população geral. Análises genômicas microssatélites têm identificado, em camundongos, 40 locos gênicos que possivelmente predispõem auto-imunidade(17).
Nos estudos iniciais, a AR mostrou associação com o haplótipo DR4. Estudos subseqüentes mostraram que o polimorfismo alélico fornecia um entendimento bem mais detalhado da associação entre o HLA-DR e AR. Independente das diferenças nos tipos de alelos DRb1 relacionados com grupos étnicos, a porção da região D associada com a doença está confinada a uma curta seqüência comum de AA da cadeia bDR (67 a 74: LLEQRRAA ou LLEQKRAA). Esta porção de AA representa a principal parte estrutural de uma bolsa ligadora de peptídeos no heterodímero DR (epítopo compartilhado), sobretudo na presença de uma lisina no lugar de uma arginina na posição 71, associada com apresentação de antígenos artritogênicos na articulação(17,22).
Na AR, as características moleculares específicas dos alelos DRB1*0401 e *0404 se restringem à seqüência de AA do 70 ao 74 na terceira região hipervariável da cadeia beta da molécula DR. Estes dois alelos, juntamente com o epítopo compartilhado, seriam marcadores de uma doença mais agressiva e erosiva(23).
A seqüência do polimorfismo é caracterizada pela presença de ácido glutâmico ou arginina na posição 70; uma lisina ou arginina na posição 71 e uma alanina na posição 74. Os alelos associados com a doença são: B1*0401, *0404, *0408, *0101 e *0102 principalmente encontrados na população branca; o B1*0405, na Ásia, o B1*1402, na Índia e o B1*10 na população da Grécia.
Embora ainda não haja dados que confirmem um papel iniciador dos genes do HLA na patogênese da AR, pacientes que apresentem alelos DRB1 geralmente manifestam alterações extra-articulares, além de que sua presença se associa com maior progressão e gravidade da doença articular, particularmente com os alelos B1*04(11).
Lúpus eritematoso sistêmico (LES)
O LES é o protótipo das doenças auto-imunes, caracterizada pela produção de auto-anticorpos contra componentes do núcleo celular em associação com um quadro clínico diverso, podendo manifestar-se em uma forma “leve” com predomínio de acometimento cutâneo-articular, até o envolvimento de órgãos nobres com altas taxas de morbimortalidade.
Uma associação entre antígenos HLA e LES foi inicialmente documentada com antígenos da classe I (B8); posteriormente verificou-se que tal associação estava relacionada com o desequilíbrio de ligação entre o B8 e o DR3, definidos sorologicamente.
Atualmente, os investigadores têm sido unânimes em afirmar uma associação positiva entre LES e os HLAs DR2 e DR3. Outros antígenos, DRw52 (DRB3) e DRw53 (DRB4), também têm sido encontrados associados com LES(24). Sabe-se, no entanto, que a presença dos alelos DR2 e DR3 está muito mais relacionada à presença de auto-anticorpos do que com manifestações clínicas típicas doença(20,24). Os genes DR1, DR7, DQw-1 e DQw-3 mostraram correlação negativa com o LES no trabalho de Gladman e cols. (1999) que estudou a sorologia de 217 pacientes com LES, prospectivamente, e comparou a um grupo-controle de 320 pacientes saudáveis; neste mesmo trabalho uma associação positiva indiscutível com o DR3 foi demonstrada.
Concluindo, o estudo dos eventos moleculares tem permitido, além da identificação cada vez mais detalhada do polimorfismo dos genes de HLA, uma melhor compreensão do real papel desempenhado por esse complexo gênico na patogenia de inúmeras doenças, inclusive das doenças reumatológicas auto-imunes.
Referências bibliográficas
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