Editorial
A Reumatologia e o reumatologista na "virada do século"
A Reumatologia, em particular, na segunda metade deste último século, foi recriada e revisitada no amplo contexto da medicina interna, avançando extraordinariamente, apesar de enfrentar muitos desafios(1,2). A OMS reputou-a, por seus atos como o ramo da Medicina responsável pelas patologias clínicas do conjunto osteoarticular e muscular ao referendar mais recentemente o reumatologista como o clínico de formação mais adequada, no atendimento destas enfermidades. E isto leva, obrigatoriamente, a reformulação curricular para que preencha esta condição básica, ocupando todos os espaços das áreas afins que participam das atitudes profilática, diagnóstica, terapêutica e de reabilitação do enfermo reumático.
O século XX evidenciou dramáticos desequilíbrios, transformações e avanços materiais. A Reumatologia não ficou isenta. Estabelecida como área de especialização médica sofreu os mesmos impactos que ocorreram em toda a Medicina. Talvez a mais fascinante atração deste desenvolvimento tenha sido a transformação ou a passagem da tentativa descritiva de entidades patológicas, no início do século, para um mais detalhado e rigoroso embasamento científico, nesta virada do milênio. Há muitas perspectivas e muitos obstáculos! No entanto, ao conhecer melhor nossas enfermidades conseguimos elementos substanciais que determinaram a conquista de melhor qualidade de vida de nossos pacientes, nos dias atuais, de modo irrefutável.
Acredito que as descobertas patogenéticas e o desenvolvimento de terapêuticas mais específicas, ao lado de novas estratégias de prevenção e de reabilitação, foram significativas. Por outro lado, todas as "ferramentas" da ciência biológica molecular foram aplicadas na patogênese e recanalizadas nos avanços observados no tratamento.
Por muitas décadas, a colchicina e os salicilatos, vindo de plantas, foram os únicos agentes parcialmente eficientes na tentativa de controle sintomático de entidades reumáticas. Sais de ouro, sulfassalazina, corticosteróides, agentes citotóxicos e antimaláricos foram introduzidos e reintroduzidos nos anos 60, 70 e 80. Por sua vez, o metotrexate foi reintroduzido no tratamento da doença reumatóide nos anos 80 e é agora considerado "padrão-prata" desta enfermidade.
Nestas últimas duas décadas, podemos listar algumas das principais contribuições fundamentais aos conhecimentos patogenéticos:
a. A genética molecular e suas conexões com a suscetibilidade e o controle da severidade;
b. Os mecanismos de inflamação e de resposta imune;
c. As evidências da participação de fatores ambientais;
e terapêuticos:
d. O desenvolvimento de novos fármacos AINHs* e possibilidades de maior proteção gástrica;
e. A síntese de novos agentes citotóxicos mais seguros e específicos como o micofenolato mofetil e a leflunomida;
f. A manipulação de citocinas e de outros distintos agentes biológicos;
g. O desenvolvimento de novas estratégias para prevenir e tratar a osteoporose;
h. O transplante de células autólogas; e
i. Uma explosão de novas moléculas chegarão à prática reumatológica, ao lado das contribuições da terapia gênica.
*AINHs = antiinflamatórios não hormonais.
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