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Editorial

Infiltrações articulares com corticosteróides e suas contradições (riscos e benefícios)


Quando um novo medicamento é lançado na prática clínica e, principalmente, quando ele é o fruto de um novo conceito fisiopatológico, é consensual, entre os agentes da saúde, a confabulação à procura de evidências práticas e científicas. Isto é, por sua vez, ávido e excitante, quando se trata de substâncias com ações analgésicas e antiinflamatórias. Questionamentos sempre em prol da comunidade de enfermos proliferam. Inicialmente, queremos saber se a nova conquista é mais efetiva, quanto à eficácia e à segurança, que os produtos já existentes; posteriormente, há outra grande preocupação que se relaciona com a farmacoeconomia: em relação ao custo-benefício vale a pena prescrever estes novos medicamentos (principalmente em relação a situação socioeconômica de nosso povo)? Já foram estudados satisfatoriamente tanto em número de casos quanto por tempo de utilização no mesmo enfermo para se conhecer seu perfil de segurança? Devemos acompanhar cuidadosamente e descrever os achados observados pela farmacovigilância contínua do pós-lançamento (um cuidado muito significativo que não temos o costume de informar)? O que é realmente evidência científica e o que é produto de "marketing" farmacêutico, oriundo de pesquisas clínicas que têm desenhos e conduções que, algumas vezes, não resistem a análises críticas menos contundentes?

Se os novos AINHs são tão eficazes quanto os mais antigos já bem conhecidos, por que este açodamento intensivo na divulgação de informações dirigidas para a mudança de nossas prescrições? E, assim, devemos analisar cuidadosamente o que está acontecendo! No controle da dor e da atividade inflamatória, em particular, nas enfermidades reumáticas, os AINHs têm sido os fármacos mais prescritos no mundo ocidental; no entanto, os "prós e contras" a utilização destes medicamentos são continuamente fontes de discussões na prática médica diária. Isto ocorre, principalmente, em relação aos riscos potenciais de toxicicidades gastrointestinais (GI), renais, de ações em plaquetas e na coagulação, entre outros, observados com o uso prolongado dos até então inibidores não específicos da cicloxigenase.

Sabemos que desde as descobertas de Vane, Ferreira e cols.(4), na década dos anos 70, os efeitos analgésicos e antiinflamatórios dos AINHs eram devido à inibição da COX, a qual cataliza a passagem do ácido araquidônico para prostaglandinas. Posteriormente, em 1989, demonstrou-se que haviam duas isoformas de enzimas COXs: COX-1 e COX-2. A COX-1 é a enzima constitutiva que regula funções celulares, sendo estimulada por hormônios e fatores de crescimento; é inibida, em intensidade variável, por todos os AINHs clássicos. Sua atividade é muito importante na manutenção da integridade da mucosa gastrointestinal (GI) e muitos dos efeitos tóxicos dos AINHs sobre o trato GI são atribuídos a esta inibição de COX-1. A sua integridade está associada com a manutenção da fisiologia renal, da função plaquetária e da função do endotélio vascular.

A outra isoforma de COX (COX-2) é a enzima induzida que está, usualmente, em níveis muito baixos ou é indetectável na maioria dos tecidos. Sua expressão é aumentada na resposta inflamatória. Ela é considerada também constitutiva no encéfalo, especialmente, no córtex e no hipocampo, estando associada a funções no trato reprodutor feminino, atuando no ciclo ovulatório e na implantação do ovo fertilizado, e no osso através da atividade osteoblástica. Acredita-se, que exerce importante papel nos rins de um indivíduo normal, atuando no balanço dos eletrólitos e da água. A COX-2 aumenta, ao lado da COX-1, ao tentar auxiliar no crescimento máximo do fluxo vascular renal por efeitos diretos na vasculatura renal, ou aumentando a reabsorção de água através de alterações do equilíbrio eletrolítico. O interessante, de acordo com estas descobertas, é o surgimento de hipótese lógica e prática a ser elucidada: ao bloquear COX-2 e poupar COX-1, consegue-se minimizar a dor e a inflamação, sem os riscos tóxicos potenciais que aparecem com o uso crônico dos tradicionais AINHs não específicos. Os ensaios controlados e randomizados, com os novos fármacos que inibem especificamente ou seletivamente COX-2, têm demonstrado, quanto à eficácia, comparada com os não específicos ou não seletivos, que ela é semelhante quando se utilizou diclofenacos, oxicams, ibuprofeno e o naproxeno nas comparações(3). Se a eficácia é semelhante, a diferença se volta para o o perfil de segurança? Se isso é verdadeir e baseados na farmacoeconomia, devem ser reservados apenas para pacientes com riscos (idosos, hipertensos, cardíacos, com lesões digestivas inflamatórias com ou sem ulcerações, com distúrbios de coagulação, entre outros) de desenvolverem toxicicidades graves?

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